Olha a tapioca, tapioquinha não faz mal,
Tapioca faz é bem porque com ela faz mingau
O sol tão forte como sempre. O rio amarelo chamava a atenção da vida, combinava-se com os raios de sol propagando-se na cidade. Maria das Dores, mulher brejeira, mãe de quinhentos filhos, subiu cedo ao cais para o ritual das sextas-feiras. Menino suspenso no colo, pano branco lhe cobrindo a face, pele de cor caramelada.
Descia Maria das Dores a escada incompleta do cais e deparava-se com o seio da feira-livre das sextas. As barracas de lonas coloridas, o vento dando ritmo e movimento à cena, as verduras e frutas ainda mais coloridas que as lonas, os gritos de oferta, as comemorações errantes dos bares e bares que ali havia.
Os balaios quase flutuavam no céu em cores da feira, eram levados em cabeças, braços, tornozelos. O trânsito congestionado de gente, a antena parabólica no alto, a tapioca alva sendo trabalhada pelas mulheres no calçadão do mercado.
Maria tinha vindo do brejo para trabalhar a tapioca. Caminhava por entre a gente engarrafada, com o filho no colo com o pano no rosto, balaio equilibrado na cabeça. Maria desceu tudo o que tinha em mãos e corpo ao chão do mercado, exceto o filho com o pano no rosto, que continuou no colo.
Abriu uma esteira no chão, pôs o balaio branco no centro e começou a trabalhar a farinha alva, que a custo se enxergava com o luzir dos raios de sol. Maria, seio farto, cor de caramelo, jogava a tapioca para cima, peneirando-a numa haste divinamente redonda. Dezenas de mulheres, em fila, sentadas na calçada do mercado faziam o mesmo e cantavam:
- Olha a tapioca, tapioquinha não faz mal,
Tapioca faz é bem porque com ela faz mingau
As mulheres da cidade desfilavam no calçadão, senhoras caídas, gastas pelo tempo, que pechinchavam, louras altas com óculos escuros, que insinuavam, gordas e letárgicas, que demoravam. Todas enchiam seus carrinhos de frutas, verduras e tapioca.
Algumas mulheres desfilavam pela feira, não com tanta sutileza como pressupõe a palavra, acompanhadas de sombras estranhas, que levavam suas compras. Eram meninos-moleques, de baixa estatura, camisas do Flamengo. A cena volvia à boca um gosto amargo de escravidão.
Maria nunca teve nenhum problema com seu ofício, mas naquele dia algo errado aconteceu. O filho era único, apesar de valer por quinhentos, como disse. Teve febre amarela, dengue, tuberculose, bronquite, e lhe carecia um pouco mais de corpo, ainda era amamentado.
Fatigado pelo calor e pela fome, o filho com o pano branco cobrindo o rosto começou a chorar incontrolavelmente. Maria não pôde suportar a aflição da criança e tirou da blusa justa um pedaço de seio. Seio farto, redondo, bonito, cor de caramelo, provavelmente doce.
A criança miúda calou o choro e entregou-se ao peito da mãe. Homens também circulavam pelo calçadão, apesar de não ter contado antes. Alguns deles estavam lá às compras, outros gastavam o álcool consumido nos botecos fixados no cais.
Contudo, outra espécie de homem tinha surgido ali. Vestia uma roupa gasta, alpercata com marcas de roça, mãos tão grandes como as enxadas que usava e o peito era um vale de pêlos. Ele era o marido de Maria, não-pai da criança.
O homem, que chegou como se viesse às compras, estava, agora, embebido de cachaça dos bares do cais e berrava que tinha vindo buscar a mulher. Ele não aceitava que Maria trabalhasse fora da roça, na cidade. Maria das Dores tinha a pele cor de caramelo, encantava os homens, não podia sair de casa nem para trabalhar.
O homem berrou e destruiu o trabalho de Maria, a esteira, as mandiocas, o balaio. Só lhe restou o menino no colo com o pano branco cobrindo o rosto. Maria foi arrastada para o cais, as mãos brancas, sujas de tapioca, olhava o que restara do seu esforço entregue à calçada do mercado.
O menino chorava com o pano cobrindo-lhe o rosto. Apressados, seguiam os três como um bloco de escola de samba, alegorias que agradavam os olhos dos feirantes e clientes. Seguiam arrastando, o homem na frente, punho fechado puxando a mulher, filho no braço com um pano branco cobrindo-lhe o rosto.
Subiram a escada do cais, gente que ia e vinha se esbarrando, passou o marido, a mulher e acriança ficaram, o pano branco voou, eu vi, a mulher e o filho seguiram. A criança não causou mistério ao mostrar o rosto, tinha uma face de preocupação e choro com o pano que voara, talvez a única expressão de sempre, mas a única que pude ver e que ela podia proporcionar-me.
Eu gritei, o pano caiu. Ela voltou, pôs o menino no chão e ordenou-lhe que fosse adiante, atrás do marido, Maria, fotograficamente, pegou o pano alvo ainda em repouso no chão sujo, apressou o ritmo, correu em direção ao rio amarelo, de longe parou e olhou para mim, sei que aquele olhar continha um agradecimento, e alcançou o filho, que pôs novamente no braço com o pano branco cobrindo o rosto, entrou na barca ancorada no porto e sumiu no mundo.
Por: Sergio Pessoa para o site http://paginarevista.com.br/sergiopessoa.html